Plano de cargos e salários: como estruturar do zero

Um Plano de Cargos e Salários (PCS) é essencial para empresas que querem tomar decisões salariais com critério e transparência. Ele começa pela descrição de cargos, passa pela avaliação e classificação por peso relativo, e é calibrado com pesquisa de mercado para garantir equidade interna e competitividade externa na remuneração.

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Um guia prático para o RH que quer construir uma política salarial justa, transparente e sustentável — com a descrição de cargo como ponto de partida.

Toda empresa que cresce chega num momento em que as decisões salariais começam a escapar do controle. Um colaborador descobre quanto o colega ganha e questiona a diferença. Um gestor oferece um aumento para reter alguém e cria uma distorção na faixa. Um novo contratado negocia um salário acima da média da equipe — e ninguém sabe exatamente se isso é certo ou errado porque não há parâmetros claros.

Esse cenário, que se repete em empresas de todos os portes e setores, tem uma causa comum: a ausência de um Plano de Cargos e Salários estruturado. E a ausência desse plano tem uma causa anterior ainda mais fundamental: a falta de descrições de cargo sólidas que sirvam como base para classificar, comparar e remunerar os cargos com equidade.

Este artigo vai mostrar o que é um Plano de Cargos e Salários, por que ele começa obrigatoriamente pela descrição de cargo, como construí-lo passo a passo e quais os erros que comprometem esse processo desde o início.

O que é Plano de Cargos e Salários?

O Plano de Cargos e Salários — conhecido pela sigla PCS — é o conjunto de políticas, critérios e estruturas que uma empresa utiliza para definir, classificar e remunerar seus cargos de forma sistemática e equânime.

Ele responde a perguntas que toda organização precisa saber responder: qual é o salário justo para este cargo? Por que dois profissionais com o mesmo título ganham valores diferentes? O que precisa acontecer para um colaborador ser promovido e ter o salário reajustado? Como nossa remuneração se compara ao mercado?

Sem um PCS, essas respostas ficam à mercê de decisões caso a caso — influenciadas por afinidade, poder de negociação do colaborador e humor do gestor no dia da conversa. Com ele, as decisões salariais ganham critério, previsibilidade e transparência.

📌 Definição objetiva
Plano de Cargos e Salários é a estrutura formal que organiza os cargos de uma empresa em níveis hierárquicos e faixas salariais, com base em critérios objetivos de avaliação — garantindo equidade interna e competitividade externa na remuneração.

O que o PCS não é?

Um equívoco comum é confundir o Plano de Cargos e Salários com uma tabela salarial simples — uma planilha com cargos e valores. O PCS é muito mais do que isso: é um sistema que inclui os critérios de avaliação dos cargos, a lógica de progressão dentro de cada faixa, a metodologia de comparação com o mercado e as regras de revisão periódica. A tabela salarial é apenas um dos componentes.

Por que o PCS começa obrigatoriamente pela descrição de cargo?

Não existe Plano de Cargos e Salários confiável sem descrição de cargo bem-feita. Essa afirmação pode parecer forte, mas ela reflete uma realidade técnica incontornável: para avaliar e classificar cargos, você precisa primeiro saber o que eles fazem, o que exigem e qual é o seu impacto na organização. Essas informações só existem em uma descrição de cargo estruturada.

A descrição de cargo fornece os dados brutos que alimentam o PCS:

Sem esses dados, qualquer tentativa de criar faixas salariais resulta em arbitrariedade. Com eles, é possível construir uma hierarquia de cargos baseada em critérios objetivos — que resistirá ao escrutínio de colaboradores, gestores e, se necessário, da Justiça do Trabalho.

💡 A sequência correta
1. Análise de cargos → levanta os dados de cada função
2. Descrição de cargos → documenta e valida essas informações
3. Avaliação de cargos → classifica os cargos por peso relativo
4. Pesquisa salarial → compara com o mercado
5. Estrutura de faixas → define mínimo, médio e máximo de cada cargo
6. Plano de Cargos e Salários → integra tudo em um sistema coerente

Pular as etapas 1 e 2 compromete irreversivelmente todas as que vêm depois.

Avaliação de cargos: como classificar os cargos por peso

Com as descrições de cargo em mãos, a próxima etapa é a avaliação de cargos — o processo de atribuir a cada cargo um peso relativo dentro da estrutura organizacional. É ela que responde: qual cargo tem mais impacto, mais complexidade, mais responsabilidade? E, consequentemente, qual deve ser mais bem remunerado?

Existem diferentes metodologias de avaliação de cargos. As mais utilizadas no Brasil são:

Método de Escalonamento

O mais simples: os cargos são ordenados do mais simples ao mais complexo sem critérios formais — com base no julgamento coletivo dos gestores e do RH. Funciona em empresas pequenas com poucos cargos, mas perde sustentação à medida que a organização cresce.

Método de classificação por categorias

Os cargos são distribuídos em categorias predefinidas — operacional, técnico, gerencial, diretivo — e classificados dentro delas. É um método mais estruturado que o escalonamento, mas ainda pouco granular para suportar políticas salariais detalhadas.

Método de pontos por fator

O mais robusto e amplamente utilizado em empresas de médio e grande porte. Cada cargo recebe uma pontuação com base em um conjunto de fatores de avaliação, como complexidade das tarefas, nível de instrução exigido, responsabilidade por pessoas e recursos, e condições de trabalho. A soma dos pontos determina a posição do cargo na hierarquia salarial.

Fator de avaliaçãoO que medeExemplo de graduação
Instrução / formaçãoNível educacional mínimo exigido para o cargo.Ensino fundamental (1 pt) → Pós-graduação (5 pts)
ExperiênciaTempo e tipo de experiência necessária.Sem experiência (1 pt) → Acima de 5 anos (5 pts)
ComplexidadeNível de dificuldade e diversidade das tarefas.Tarefas repetitivas (1 pt) → Alta complexidade (5 pts)
AutonomiaGrau de independência nas decisões.Sem autonomia (1 pt) → Decisões estratégicas (5 pts)
Responsabilidade por pessoasLiderança formal de equipes.Sem subordinados (1 pt) → Equipe de 20+ (5 pts)
Impacto nos resultadosInfluência direta nos resultados do negócio.Impacto indireto (1 pt) → Impacto crítico (5 pts)

A pontuação total de cada cargo determina sua posição na estrutura — e cargos com pontuações similares são agrupados em grades ou bandas salariais. Isso é o que garante que dois cargos com o mesmo peso relativo sejam remunerados de forma comparável, mesmo sendo de áreas completamente diferentes.

Pesquisa salarial: como calibrar com o mercado

Equidade interna é fundamental — mas não é suficiente. Um PCS que paga de forma justa internamente, mas abaixo do mercado, vai continuar perdendo talentos para a concorrência. Por isso, a estrutura de faixas salariais precisa ser calibrada com dados de mercado.

A pesquisa salarial é o processo de coletar e analisar dados remuneratórios praticados pelo mercado para cargos equivalentes ao seu. Ela pode ser feita de três formas:

Fonte de dadosVantagensLimitações
Pesquisas salariais de consultorias (Mercer, Hay, Towers Watson)Alta confiabilidade, segmentadas por setor e porte.Custo elevado. Geralmente acessíveis apenas a empresas maiores.
Plataformas digitais (Glassdoor, Vagas.com, LinkedIn Salary)Gratuitas, atualizadas, ampla cobertura de cargos.Menor rigor metodológico. Dados autodeclarados pelos usuários.
Benchmarking com empresas do setorAlta aderência ao contexto competitivo real.Depende de parcerias e confiança mútua entre empresas.

O resultado da pesquisa fornece três referências para cada cargo: o salário praticado pelo percentil 25 (abaixo da mediana), pelo percentil 50 (mediana de mercado) e pelo percentil 75 (acima da mediana). Esses valores se tornam as referências para o mínimo, o ponto médio e o máximo de cada faixa salarial.

📊 Como interpretar os percentis na prática
P25 (mínimo da faixa): paga abaixo de 75% do mercado. Adequado para colaboradores em desenvolvimento ou recém-admitidos.
P50 (ponto médio da faixa): alinhado com a mediana de mercado. Referência para profissionais plenamente qualificados e produtivos.
P75 (máximo da faixa): paga acima de 75% do mercado. Reservado para profissionais de alto desempenho ou em cargos críticos para retenção.

A empresa não precisa posicionar todos os cargos no P75 — mas precisa saber conscientemente em qual percentil quer competir e por quê.

Como estruturar as faixas salariais

Com a avaliação de cargos e a pesquisa salarial em mãos, é hora de construir a estrutura de faixas. Cada grade ou banda salarial deve ter três pontos de referência:

Ponto da faixaO que representaQuando aplicar
Mínimo (entry point)Valor de entrada no cargo. Abaixo desse ponto, o salário não é competitivo.Contratação de profissionais sem experiência prévia no cargo.
Ponto médio (midpoint)Referência central da faixa, alinhada à mediana de mercado.Profissionais com pleno domínio das responsabilidades do cargo.
Máximo (ceiling)Teto da faixa. Acima desse ponto, a progressão exige promoção de cargo.Profissionais de alta performance e longa permanência no cargo.

A amplitude de cada faixa — a distância percentual entre o mínimo e o máximo — varia conforme o nível do cargo. Cargos operacionais tendem a ter faixas mais estreitas (20% a 30% de amplitude). Cargos de liderança e estratégicos têm faixas mais largas (50% a 80%), porque a variação de competência e impacto entre os ocupantes é naturalmente maior.

Nível do cargoAmplitude típica da faixa salarial
Operacional / auxiliar20% a 30% (ex: mínimo R$ 2.000 → máximo R$ 2.600)
Técnico / assistente30% a 40% (ex: mínimo R$ 3.000 → máximo R$ 4.200)
Analítico / especialista40% a 50% (ex: mínimo R$ 5.000 → máximo R$ 7.500)
Coordenação / supervisão50% a 60% (ex: mínimo R$ 7.000 → máximo R$ 11.200)
Gerência / gestão sênior60% a 80% (ex: mínimo R$ 12.000 → máximo R$ 21.600)
Diretoria / liderança executivaAcima de 80% (estrutura de remuneração variável complementar)

Passo a passo: como estruturar o PCS do zero

Com a teoria clara, veja o roteiro prático para construir o Plano de Cargos e Salários de uma empresa:

  1. Inventário de cargos: liste todos os cargos existentes na empresa, com título oficial, área e número de ocupantes. Identifique cargos duplicados com nomenclaturas diferentes e defina a nomenclatura padrão alinhada à CBO.
  2. Coleta e revisão das descrições de cargo: para cada cargo listado, verifique se há uma descrição de cargo atualizada. Cargos sem descrição ou com descrição desatualizada precisam passar pelo processo de análise e redescrição antes de avançar.
  3. Avaliação de cargos: aplique o método de avaliação escolhido (recomenda-se o método de pontos por fator para empresas com mais de 50 colaboradores). Forme um comitê de avaliação com representantes do RH e da liderança para garantir imparcialidade.
  4. Agrupamento em grades: agrupe os cargos com pontuações similares em grades ou bandas. Cada grade corresponderá a uma faixa salarial. O número de grades depende do tamanho e da complexidade da estrutura da empresa.
  5. Pesquisa salarial: colete dados de mercado para os cargos de cada grade. Use pelo menos duas fontes para cruzar as referências e identificar outliers.
  6. Definição das faixas salariais: para cada grade, defina o mínimo, o ponto médio e o máximo, baseando-se nos percentis de mercado e na estratégia de posicionamento da empresa.
  7. Análise de aderência: compare os salários atuais dos colaboradores com as faixas definidas. Identifique quem está abaixo do mínimo (ajuste imediato necessário), dentro da faixa (situação regular) e acima do máximo (salário congelado até o cargo ou a faixa evoluir).
  8. Comunicação e implantação: elabore um plano de comunicação transparente. Colaboradores que receberão ajustes positivos são fáceis. O desafio está em explicar para quem está acima do teto porque o salário não aumentará no próximo ciclo.

⚠️ Ponto crítico: os salários acima do teto
Colaboradores que ganham acima do máximo da faixa — chamados de ‘red circle’ — são um ponto sensível na implantação do PCS.

A recomendação é nunca reduzir salários. Em vez disso, congele os reajustes até que a faixa salarial alcance o valor atual do colaborador, ou ofereça um plano de progressão para um cargo de nível superior que comporte a remuneração atual.

Transparência e respeito à trajetória de cada pessoa são inegociáveis nessa etapa.
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Erros que comprometem o Plano de Cargos e Salários

ErroConsequência e como evitar
Construir o PCS sem descrições de cargo atualizadasA avaliação de cargos perde base e os agrupamentos ficam distorcidos. Invista primeiro nas descrições.
Usar apenas uma fonte de pesquisa salarialOs dados de uma única fonte podem estar enviesados. Cruze pelo menos duas pesquisas de referências distintas.
Criar faixas salariais sem critério de progressãoColaboradores ficam sem perspectiva de crescimento dentro da faixa. Defina regras claras de mérito e tempo de casa.
Não revisar o PCS periodicamenteFaixas desatualizadas perdem aderência ao mercado e geram defasagem competitiva. Revise anualmente, no mínimo.
Implantar sem comunicação transparenteGera desconfiança, rumores e percepção de injustiça. Comunique os critérios antes de revelar os resultados.
Incluir muito poucos ou muitos cargos no mesmo gradeMuitos cargos no mesmo grade apaga diferenças reais. Poucos criam hierarquias artificiais. Calibre pelo método de pontos.

Como o Join RH estrutura cada etapa do Plano de Cargos e Salários em um único sistema integrado

Construir um Plano de Cargos e Salários robusto exige que quatro etapas funcionem de forma encadeada: arquitetura de cargos, descrição de cargos, política de remuneração e diagnóstico salarial. Quando cada etapa existe em um sistema diferente — ou pior, em planilhas separadas — o PCS perde coerência e o RH perde controle.

O Join RH oferece cobertura completa dessas quatro etapas em uma única plataforma integrada, projetada especificamente para a realidade do RH brasileiro.

Na Arquitetura de Cargos, o RH estrutura os níveis hierárquicos, cargos e funções da empresa com visualização clara para toda a liderança. Na Descrição de Cargos, cria modelos personalizados com fluxo de aprovação online, controle de revisões e histórico completo — com suporte da IA para geração de conteúdo. Na Política de Remuneração, constrói tabelas salariais por nível hierárquico ou filial e define a estratégia de progressão por tempo, desempenho ou faixa. No Diagnóstico Salarial, visualiza graficamente o impacto financeiro, as distorções existentes, a curva salarial e simulações para os próximos ciclos.

Para a liderança, o Join RH entrega transparência: gestores acessam as informações de cargos e salários da sua equipe com autonomia, dentro dos limites de acesso definidos pelo RH. Isso descentraliza o operacional sem perder o controle estratégico.

“Trabalhamos com o Join RH há mais de 15 anos. Ele fornece uma administração de pessoal completa, desde a seleção até o desligamento, e permite o acompanhamento dos KPIs e metas de toda a empresa de forma transparente.” — Rogério Baldauf, Diretor Superintendente, ACE Schmersal.

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Perguntas frequentes sobre plano de cargos e salários

O PCS é obrigatório por lei no Brasil?

Não existe uma lei que obrigue todas as empresas a terem um Plano de Cargos e Salários formalizado. No entanto, algumas categorias profissionais possuem pisos salariais definidos em convenções coletivas que precisam ser respeitados. Além disso, a ausência de critérios salariais documentados expõe a empresa a ações judiciais de isonomia salarial — situação em que colaboradores que exercem a mesma função exigem equiparação salarial. O PCS bem estruturado é a principal defesa contra esse tipo de reclamação.

Quanto tempo leva para estruturar um PCS do zero?

Depende muito do tamanho da empresa e do estado das descrições de cargo. Em uma empresa com até 100 colaboradores e descrições de cargo já existentes, um PCS básico pode ser estruturado em dois a três meses. Em empresas maiores, ou que precisam criar as descrições do zero, o processo costuma levar de seis meses a um ano. O tempo mais longo é sempre gasto na etapa de análise e descrição de cargos — o que reforça a importância de manter esse processo atualizado continuamente.

Como lidar com cargos que têm grande variação de salário no mercado?

Cargos de tecnologia, jurídico e especialistas técnicos frequentemente apresentam alta dispersão nos dados de mercado — profissionais com o mesmo título ganham valores muito diferentes dependendo da empresa, do porte e da região. Nesses casos, o ideal é refinar a segmentação: divida o cargo em subníveis (Júnior, Pleno, Sênior, Especialista) com critérios claros de distinção e crie faixas separadas para cada um. As descrições de cargo de cada subnível precisam refletir com precisão o que diferencia um nível do outro.

PCS e PLR têm alguma relação?

Sim — e é uma relação importante. O Plano de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) é frequentemente estruturado com base nos cargos e nas faixas do PCS. Cargos de maior responsabilidade e impacto costumam ter percentuais de PLR proporcionalmente maiores. Quando o PCS está bem estruturado, o cálculo do PLR ganha objetividade e os critérios ficam mais fáceis de comunicar e defender para toda a equipe.

Conclusão

Um Plano de Cargos e Salários bem estruturado não é um luxo de grandes empresas — é uma necessidade para qualquer organização que queira crescer de forma ordenada, reter bons profissionais e tomar decisões salariais com critério e segurança jurídica.

E ele começa, invariavelmente, pela descrição de cargo. Não existe PCS confiável sem saber com precisão o que cada cargo faz, o que exige e qual é o seu peso relativo dentro da organização. Essa é a base sobre a qual todo o restante se sustenta.

Se a sua empresa ainda não tem um PCS estruturado, o primeiro passo não é escolher a metodologia de avaliação nem contratar uma pesquisa salarial. O primeiro passo é garantir que as descrições de cargo estejam atualizadas, validadas e prontas para fundamentar as decisões que vêm a seguir.

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